Graciele Adriana

A Casa Família foi o abrigo onde morei de agosto de 1998 a dezembro de 2002. Cheguei ali aos 13 anos e oito meses, em um contexto de extrema vulnerabilidade social e familiar. Eu vinha de uma realidade marcada pelo alcoolismo, pela pobreza e por um atraso educacional severo. Na prática, era quase analfabeta para a minha idade.

Ao chegar à Casa Família, encontrei não apenas acolhimento, mas direção. Com o incentivo da então diretora, irmã Celide, iniciei o supletivo ainda naquele ano. Eu havia concluído apenas a segunda série do ensino fundamental aos 13 anos. Nos anos seguintes, consegui recuperar um atraso escolar que parecia definitivo: concluí do quinto ao oitavo ano em um ano e meio e, depois, todo o ensino médio em mais um ano e meio. Aos 17 anos, estava com o ensino médio concluído — algo que, à época, parecia um milagre.

Permaneci na Casa Família até completar 18 anos. Nesse período, além dos estudos, tive acesso a aprendizados fundamentais para a vida. Aprendi a cozinhar, a cuidar do cotidiano e a assumir responsabilidades — habilidades que, embora simples, foram decisivas para a construção da minha autonomia. A irmã Camila teve um papel importante nesse processo: ensinou-me a rezar e a cozinhar.

Mais do que formação acadêmica ou prática, a Casa Família me ofereceu algo que eu não tinha: a possibilidade de imaginar um futuro diferente. Até então, certos caminhos simplesmente não existiam no meu horizonte de consciência. Eu sequer sabia que a faculdade era uma possibilidade real.

Ainda morando na Casa, consegui uma bolsa para cursar o técnico em Secretariado, o que abriu, pela primeira vez, a perspectiva concreta de um curso superior. Ao sair da instituição, já havia sido aprovada no vestibular para a graduação em Secretariado Executivo.

Mesmo após minha saída, o apoio continuou. Com a ajuda de um grupo de voluntários italianos, foi encontrada uma casa onde passei a morar com minha mãe, meu padrasto e meus dois irmãos — inclusive meu irmão do meio, que também estava abrigado em outra instituição e pôde, então, se reunir à família. Esses mesmos voluntários também tornaram possível a continuidade da minha formação superior, com apoio financeiro correspondente a 50% da mensalidade do curso.

Hoje, olhando para trás, compreendo que a Casa Família não apenas me acolheu em um momento crítico. Ela rompeu um ciclo, ampliou meu mundo possível e lançou bases concretas para a vida que pude construir depois.

Desde 2012, trabalho na Itaipu Binacional, após ser aprovada em processo seletivo.

Sou mãe de dois filhos: Elise, de 17 anos, recentemente aprovada em primeiro lugar para o curso de Direito na Unioeste, e Enzo, de 11 anos.

Serei eternamente grata por todas as oportunidades que a Casa Família me proporcionou.